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04 outubro, 2011

Mehmet Ozbur
























Foi então numa manhã comum, nem fria nem quente, que sua colega de trabalho lhe contou seu drama. Medo de dormir. Medo de adormecer e ser tomada por um pesadelo premonitório. Uma vez, o acidente do seu tio. Outra vez, a cirurgia de seu pai. Da outra, previu sua prima sem a gravidez.
Conhecer o fato antes do acontecimento a transtornava.
Experimentou a ideia de nunca puder dormir e ficou louca de dor.

Martha

07 maio, 2011





A faculdade era perto da casa de tia Luda, eu almoçava sempre lá. Uma vez, era dia de Wilson receber uma medalha no grupo dos Alcóolicos Anônimos. O calor estava imenso. Pedi a meu primo Adriano uma camiseta emprestada. Ele me deu uma branca, com uma imagem do Snoopy. Que bom poder tomar um banho.
À noite, no encontro, percebo que na camiseta o Snoppy dizia: "Bebo porque é líquido, se fosse sólido comeria."
Nossa, que coincidência infeliz. Ainda bem que Leila estava com uma echarpe, algo assim, que escondeu a minha blusa.

Martha

26 janeiro, 2011


Da série: Meu caderno vermelho


H. precisava tirar uma foto sem ser visto. No coração da Avenida Sete, ele virou de costas e fotografou discretamente, sem olhar.
Quando chegou ao jornal e olhou as fotos, quem estava em uma delas?
Sua sogra Iray flanando na Avenida Sete.
Nem Jung acreditaria.

Martha

07 maio, 2010











Eu era estranha e herdara o quarto que era de meu pai e minha mãe. Havia um grande armário embutido, onde, na parte de meu pai, eu cabia facilmente sentada.
(Lembro dos paletós que me traziam o mundo. Canetas douradas, prateadas e lindas com bolinhas penduradas compradas nas importadoras japonesas do Edifício Politécnica. Um papel do tamanho de um assustador bebê que já nasceu falando. Um documento que me contou que Antônio é meu irmão.)
Mas o que eu quero lembrar foi o dia em que Tico queria ser meu amigo. Eu fugia pois ele era estranho. Tico bateu na porta da minha casa e eu me escondi nesse guarda-roupa. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, ele abriu as portas do armário e simplesmente falou:
- Vamos ao cinema?
Fiquei muito envergonhada por estar escondida e respondi fingindo simplicidade:
- Vamos.
Fomos assistir A Vida de Brian. Nos tornamos tão amigos e inseparáveis que todos pensavam que éramos irmãos.


Martha

18 outubro, 2009

Da série: Meu caderno Vermelho

Nesse século havia um unicórnio azul, era 1989. Em Berlim, trincava o muro, no Brasil, meu coração. O rapaz, meu namorado, era do PCB, e quando menos esperávamos, saiu a sua bolsa de estudos na Alemanha Oriental.
Fui até o Rio de Janeiro para a despedida e preferi embarcar primeiro. Temi a solidão de um aeroporto estranho. Sentei em minha poltrona e comecei logo a chorar. Pela janela eu via o unicórnio azul despencar. Um senhor bonito sentou-se ao meu lado e falou:
- O avião ainda nem levantou voo, e você já está chorando?
Que coincidência! Era Roberto Freire, o candidato a presidência da república pelo PCB. Contei a minha história e ele me contou uma história sua muito parecida. Acho que votei nele nessa eleição.
Guardei as cartas de amor, únicas, e um pedaço qualquer do muro.

Martha

20 setembro, 2009

Da série: Meu caderno vermelho

Todo mundo com 17 anos. Bonitos, ruidosos, ávidos. Em minha turma do 3º ano, um apaixonante menino do Rio. Em junho, a festa de São João foi também a sua festa de despedida. Minha amiga Ceiça foi a encarregada de sortear os pares da quadrilha. Claro, eu fui a sorteada pra dançar com ele.
Nunca mais nos falamos. Dois anos depois, no Rio de Janeiro, era julho quando ele entrou no mesmo ônibus que eu estava.( Ceiça, foi você quem sorteou o instante? ) Acho que foi no Leblon, mas sei que ele tinha nas mãos um envelope pardo e uma caneta para anotar meu telefone.

Martha

18 setembro, 2009

Da série: Meu caderno Vermelho

Início da faculdade, eu tinha no máximo 19 anos, cabelos longos. Estava andando no calçadão do Relógio de São Pedro quando um homem me perguntou: Você é filha de Iray?
Havia sido amigo de minha mãe e há muitos anos não se viam, mas me "reconheceu" pela semelhança dos rostos.

Martha

08 agosto, 2009

Desamparo

Uma vez comprei pra mim uma sandália baixinha, de couro, como eu gosto. Assim que comecei a usá-la senti que me incomodava muito, pois apertava meus dedos. Dei para uma amiga.
Pouco tempo depois, estava andando num shopping e vi uma sandália bonita, baixinha e de couro. Dessa vez, já saí da loja calçada com ela. Antes de chegar ao fim do corredor, senti que ela me incomodava muito, apertando impiedosamente meus dedos dos pés.
Meus olhos se encheram de lágrimas. A sandália era a mesma que eu havia comprado pouco tempo antes.

M.

A Chuva de Maria

A Chuva de Maria

Muadiê Maria

Muadiê Maria