02 maio, 2021







Pratico escuta. Ontem, depois de assistir The father, precisei beber água e caminhar sozinha com Maya no quintal pra conseguir parar de chorar. O bebê que chorava muito no prédio aqui perto deixou de chorar tanto, que alívio, meu peito implodia de angústia. Gosto muito quando chove porque à noite os sapos cantam. Gosto muito quando faz sol porque os passarinhos não me deixam trabalhar. Melhorei muito com as cigarras, nem me entristecem mais. As lagartixas se jogam do teto no chão, nunca ouvi som mais nojento. Prefiro zuada a barulho. Não tem nem adjetivo pra barulhinho de água correndo. Paz é ouvir a voz de minha gente. Em Ubaíra, Teófilo usava um megafone pelas ruas. O que tanto você gritava, Teófilo? Não lembro. Mas sinto. Guardo memórias que não são minhas.

M.


06 março, 2021


 Fiz essa foto quando chegamos à praia hoje, minutos antes de soltar Maya, horas antes de passar por um dos piores momentos da minha vida.

   Frequentamos uma praia imensa e vazia, justamente por ela ser assim. Parecia que seria mais uma manhã maravilhosa, quando percebi que Haroldo tinha caído em um redemoinho no mar. No início comecei a gritar seu nome e pedir pra ele voltar. Em seguida corri pra areia para colocar meus óculos - quase 7 de miopia.

   E então eu vi a cena desesperadora, ele nadava, nadava, e não saía um milímetro do lugar. Gente, eu gritava: Não nade! Tente vir com a onda! Mar aberto, maré enchendo, rebentação, ele não me escutava. Em algum momento ele fez sinal com a mão e gritou: Peça ajuda!

   Praia imensa e vazia! A maré está enchendo, vai devolver ele, foi um dos meus pensamentos, que foram tantos e tão rápidos, estava focada em encontrar ajuda, quando na praia imensa e vazia vejo caminhando um rapaz. Fui correndo até ele e apelei.

   Pessoa certa, na hora certa, o cara era a calma em pessoa, centrado, perspicaz, trouxe calma, e Haroldo, que já estava começando a encontrar o caminho de saída, conseguiu sair do redemoinho.

   Que alívio indescritível. Quando eu vi o peito de Haroldo, a água chegando em sua cintura, pude dar uma desmoronada, tremi.

   Não perguntamos o nome desse Buda Nagô, mas agradecemos imensamente.

Laroyê Exu

Axé Babá

Epa omi oooo

02 fevereiro, 2021

A mulher e o mar

Uma vez tive medo do mar.  
Era noite em Guaibim e o céu e o mar se tornaram um. Insuportável vastidão, tudo se fortaleceu  incompreensível.
Foi a única vez que tive medo do oceano. Mal podia olhar. 

12 dezembro, 2020

 Hoje é um dia bom pra chorar um córrego, uma ribeira, mas os olhos estão secos. Meu peito diz: águas, só subterrâneas.

M.

06 dezembro, 2020

    CRIAR

Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
criar criar
sobre a profanização da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos.
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas
simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.
Agostinho Neto
Martha Galrão

A Chuva de Maria

A Chuva de Maria

Muadiê Maria

Muadiê Maria