29 julho, 2010

Foto: Arlete

Num verão qualquer na década de 70, ele levou a mulher e os dois filhos para passar as férias em Ubaíra. Nunca mais voltou.
Nunca mais foi buscá-los.
Nunca mais.

A mulher viveu até o fim como viúva de marido vivo.
A filha viveu com a dor da incompreensão do abandono.
Do filho eu não sei.
Meus primos. Passaram a morar na beira do rio, na casa dos avós.
Na avó, irmã da minha, eu procurava doçura e não achava. Aquele corpo tão magro, ossudo, aqueles cabelos pintados de um preto mais preto que as asas da graúna, aquela boca que mal sorria.
O avô, mais manso, Neném, morreu na rua, só pra confirmar o abandono, só pra ser achado caído no meio-fio, morto, e fazer minha prima sofrer tanto de novo. Antes que levassem para o velório o corpo, ela colocou um travesseiro embaixo de sua cabeça para aliviar o desamparo.

Desde que eu sei que existo, eu tenho muito medo que as pessoas sumam. Porque essa história, e outros acontecimentos, me deixaram essa marca. As pessoas somem. Para nunca.

Martha

6 comentários:

Edu O. disse...

Uma lágrimou engasgou na minha garganta. Muito forte e triste!

Gerana Damulakis disse...

Não há como aceitarmos que as pessoas desaparecem. É também uma angústia para mim.

Chorik disse...

Angústia total menina. Não suma de nós, pelamordedeus.

Ana Cecília disse...

Lindo, Martha. Passa por dentro da gente.

cirandeira disse...

Triste.
Muito triste.
Tristérrimo!

O abandono, a perda, nos dilaceram!

Beijo

aeronauta disse...

Forte, pungente, verdadeiro. Diz o que sabemos e não sabemos sobre o abandono.

A Chuva de Maria

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Muadiê Maria

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