04 novembro, 2018

ÁGUA-VIVA

A vida
é a água-viva
que queima minha perna
quando nado.
A literatura é o rastro que deixo
na água quando volto à terra
gemendo.

(traduzido do norueguês-nynorsk por Luciano Dutra)

[BRENNMANETEN]

Livet
er den brennmaneten
som streifar låra mine
når eg sym.
Litteraturen er faret i vatnet
etter meg, når eg hylande
spring på land.

Gunnhild Øyehaug


por exemplo, o interfone está sempre quebrado, varro o quintal, mato formigas, o sofá está ficando velho, faço feijão enquanto vejo novela, sou Martha, cuido das plantas, não faço nada, tempero e congelo, perco a paciência, leio, faço pouco dinheiro, sou irmã, sou mulher, escrevo, choro, sinto saudade, dirijo, quebrei um prato e alívio: o vidro era temperado, quebro promessas, sinto raiva, conto história, sorrio, sou filha, viajo, volto, uso o mesmo chaveiro desde os 15 anos, sou mãe, fico calma, grito, uso perfume, sou amiga, gargalho, desisto, duvido, mando mensagens, sou indiferente, dou água e comida aos gatos e cágados, não faço a cama, quero flores, tenho medo e coragem, numa desordem retada.

foto: Luciana
um forte aperto
no peito à beira
dum abismo tonta
à beira um peito
um aperto tonto
um forte peito
um abismo forte
um peito abismo
apruma à beira
tonta tonta
um peito aperta
apruma forte
embora tonto
à beira à beira 
um peito aperto
apruma firme

Deisiane Barbosa

mameluco

hoje a cabeça frita desde cedo no 
óleo quente do noticiário. não sou
poeta nem filósofo, sou ingênuo: acabo
de aprender: a culpa é dos outros, 
meus amigos dizem, meus ancestrais
também, eu ouço meus ancestrais
no chiado da frigideira, na gordura
borbulhante, bolha-tamoio,
bolha-banto, bolha-mouro, bolha-
manoel-de-trás-os-montes, algo me 
diz que são os outros que me tomam 
pelas mãos e pelos pés, e num tapete
voador, essa noite, eu fui à cidade
sagrada dos mamelucos, e lá me
pregaram na cruz, e lá me fizeram a
cabeça com o sal do tempo, as 
especiarias das índias, e gordura
fervilhante, a banha que eu trago: 
nos vazios do corpo, esse
corpo de camadas e camadas e
camadas de espíritos que eu fui,
que eu sou, que eu encarno como
ninguém mais: eu frankenstein que
assombro os homens, costurado
até os dentes com os pedaços
disponíveis, walking dead dos
sertões, flecha dos índios guarani-
kaiowá: apontada pro coração-de-
jesus-louro-de-olhos-azuis na
parede da sala

Nílson Galvão

A Chuva de Maria

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Muadiê Maria

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