17 setembro, 2016


minha pessoa nessa noite

● oh meu deus oh meu deus ●
● diz minha pessoa vendo chegar ●
● perto demais perto demais diz ●

● minha pessoa apavorada e nua ●
● por dentro da noite nessa esquina ●
● oh meu deus oh meu deus berra ●

● minha pessoa pra baixo pra baixo ●
● não ha nada nada mais a fazer ●
● senão tropeçar cair cair e cair ●

● berra minha pessoa nua nua ●
● nua demais é sempre muita merda ●
● merda demais berra minha pessoa ●

● apavorada e nua oh meu deus ●
● oh meu deus q merda agora foi ●
● um olho depois serão as pernas ●

● oh meu deus oh meu deus ●
● se restarem os dedos ha o piano ●
● berra minha pessoa apavorada ●

● depois os ossos depois os aneis ●
● os amigos os inimigos os cães ●
● todos os gatos da cidade se vão ●

● oh meu deus oh meu deus nua ●
● sempre nua e apavorada agora nua ●
● sem outro olho as orelhas e sangra ●

● nua aterrada e nua oh meu deus ●
● oh meu deus berra minha pessoa ●
● agora sem as pernas sem os braços ●

● se pelo menos ficassem os aneis ●
● os aneis oh meu deus oh meu deus ●
● nem a lingua nem mais a lingua ●

● oh meu deus oh meu deus berra ●
● minha pessoa sem saber o q fazer ●
● assim sem nada de minha pessoa ●

● dentro dessa noite escura demais ●
● sem nem um pedaço nem a lingua ●
● os olhos oh meu deus oh meu deus 

Alberto Lins Caldas
Dizem que, mais ou menos aos quatro anos, quando usava botas ortopédicas, eu tinha um colega que batia em todo mundo. 
Um dia ele me bateu e eu dei um chute em sua canela, a bota certeira em seu osso. De imediato ele perguntou: Vamos ser amigos?
Quero não.
Ai que saudades que eu tenho
Das botas em minha vida.

M.

05 agosto, 2016

Cabelos enroladinhos enroladinhos 
Cabelos de caracóis pequeninos 
Cabelos que a natureza se deu ao luxo 
de trabalhá-los e não simplesmente deixá-los 
esticados ao acaso 
Cabelo pixaim 
Cabelo de negro.

Henrique Cunha Júnior

31 julho, 2016

sacode

mantenha escondidos
os círculos marrons
(dos bicos dos mamilos)
a fenda funda
(das nádegas)
não queremos ofender a honra da família mineira

pura que pariu
ser livre
é mais uma besteira
que inventaram para te fazer sofrer
seja aceita minha nêga
seja a seita
fundada por machos
que acham que mulher descoberta
foi feita para se abusar

ou não

ou abra com os dedos
os lábios da buceta
da buceta
como homem que sacode o saco
quando quer xingar

Norma de Souza Lopes

26 julho, 2016


O povo pensa que o céu é perto, mas a lonjura é quase infinita. 
Todos os dias, Anarina, amiga brisa, corre com valentia nordestina para rasgar a noite e buscar o Sol pra mim.
Só então acordo, preguiçosa, e digo de Salvador para Fortaleza: 
Bom dia, Teodora.

M.


foto: Suzana Costa

A Chuva de Maria

A Chuva de Maria

Muadiê Maria

Muadiê Maria