15 Julho 2009





Pedro Luis Raota

13 Julho 2009


Eu sou inverno, primavera, verão e outono. Sou a tristeza do fim de tarde, a alegria do meio dia e a esperança do amanhecer. Sou Cássia Eller, Adélia Prado e muitas vezes Cecília e Doris. E por puro medo eu não digo: eu sou Clarice. Sou Beatriz, Iray e Marília. Sou todo o mar do Guaibim, sou meu pai na rede e os passarinhos. Sou Maurício e sou Antônio. Sou pinha, tangerina, caju e seriguela. Acarajé, vatapá e camarão. Sou Ubaíra, os primos e os recantos secretos, as frutas, os bichos, a terra, os jornais, meu avô. Sou andar de bicicleta, em bando, no Parque de Pituaçu. Sou banho de chuveiro, banheira, piscina, rio, lagoa, mar, cachoeira. Sou água. Sou flor. Sou espinho, sou ardência. Sou medo de assombração. Sou sala de aula, burburinho e mil sentimentos. Sou as crianças se perguntando: por quê? Sou conversa com os amigos, sou dançar com eles. Sou dança. E música bem alta. Sou café bem feito. Sou viagem à noite, de carro, a estrada cortando escuridão e silêncio. Sou a emoção nos olhos do meu amado. Sou beijo e abraço, sono enroscado, sou brigadeiro e sessão da tarde e sou adeus,

M.

09 Julho 2009


Márcia e vó Augusta

Da série: Reminiscências

Vó Augusta era baixinha, toda redondinha, linda. Tinha cintura de pilão e só usavas vestidos. Ela fazia balas de mel deliciosas com gengibre, chá de limão, um arroz bem soltinho, gostoso, com ovos mexidos no ponto. Eu adorava uns quadradinhos de chocolate feitos por ela.
Vó Augusta não é avó de sangue, como dizemos em minha terra, é uma avó de consideração.
Uma vez ela falou do amor para mim e para Márcia. Nos contou que casou com vô Lindolpho aos 17 anos e que antes do casamento tiveram poucos encontros. Se namoravam com o olhar, ela na varanda e ele na rua.
Nos disse uma coisa linda, que jamais esqueci: gostava de deitar com ele, os dois nus, abraçados, e assim ficar conversando...
Vô Lindolpho era um cavalheiro muito charmoso. Sempre gentil, tinha um caderno com poesias escritas por ele numa letra linda.
Lembro quando morreu, tranquilo como merecia, vendo o Jornal Nacional, éramos crianças e Márcia foi lá pra casa. Também fiquei triste e com saudade.
Vó Maria Augusta e vô Lindolpho são uma linda história da minha infâcia. Me mostraram o amor.


M.


Nessa entrevista deliciosa, António Lobo Antunes diz que encontrar um bom livro é uma coisa maravilhosa.
Também é maravilhoso encontrar uma boa professora. Inge é maravilhosa. Ela é minha professora de yoga.



António Lobo Antunes em conversa com Humberto Werneck - parte 2 - FLIP 2009

04 Julho 2009

Savanas

São as vergonhas do passado
um campo de leões dormindo.

São as vergonhas do passado
um campo de leões dormindo.
Cuidado - os fracassos de ontem,
como esses leões a dormir,
não deverão ser despertados.


como esses leões a dormir,
não deverão ser despertados.
São mais perigosos, agora,
como ex-amigos, com minúcias,
que zelam por teu mal estar.

como ex-amigos, com minúcias,
que zelam por teu mal estar.
Como esquecerás teus fracassos,
se até mesmo um pequeno êxito
pode trazê-los à lembrança?

se até mesmo um pequeno êxito
pode trazê-los à lembrança?

Alberto da Cunha Melo

03 Julho 2009


Eu estanquei de repente ou foi o mundo então que cresceu.
Pra piorar, eu nem sou Chico Buarque.

02 Julho 2009

Canção da Garoa

Em cima do meu telhado,
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater;
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê...
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

Mario Quintana

30 Junho 2009

São Pedro

Desde criança eu gosto muito de comemorar o São Pedro, sempre guardava uma parte dos fogos do São João para ele.


Nos preparativos, a ajuda inestimável de Jonnhy

Bia e Rafael na produção de bandeirolas

Haru observava tudo e não fazia nada

a principal personagem: a fogueira

tio Orlando

no centro: Rodrigo e minha mana Marília

Lito e Andrea minha mãe Iray

Isadora

Priscila



eu, Haroldo, Giselly e Moraes

Ibraim observando a festa brasileira

Leila e Amanda

Amanda em sua linda roupa de chita

Choco, Beatriz e Priscila atentos ao que Isadora contava

Giselly e Moraes Jumara

29 Junho 2009

Epígrafe

Todo mundo tem seu inferno. Passa por ele. Fogo nas ventas, fogo na alma, garfada nas entranhas. É, todo mundo tem seu inferno. Panela fervente nas costelas, Deus e o Diabo rindo por perto. Não adianta reclamar, tentar abrir as portas da casa, as portas da alma, as portas do sei lá o quê. Não há, não há caminho, não vês? Uns choram, outros dançam, outros passeiam, outros amam. O mundo inteiro chacoalha seu escárnio, enquanto estão lá teus dedos, estrebuchando na panela, fritando unha por unha. E teus dentes se cerram, provando uma força ínfima diante da labareda nos intestinos. O vento mostrando a que veio: dando uma abanadinha miserável na dor, soprando, soprando, docemente, como convém ao vento, só isso.

Aeronauta

26 Junho 2009

Viagem _ junho _ 2009

Parte I
Destino: Valença


auto-retratos



Emília

Homem-monografia

a volta pra casa


Fotos: Beatriz

Viagem _ junho _ 2009



Parte II
São João no Latifúndio com a Comunidade Independente
("ela é muito mais quente")


Rose e Márcia

tais filhas


tais mães

esperança combalida







flores













Maria Fernanda

Chao

Márcia

a barraca de beijosAnaís, Beatriz e Márcia

Fernanda e Noemi

"...não fure, Quinho, não,
não fure Quinho, não,
Quinho é gente boa
e não gosta de confusão..."
o arraiá


Babi

super gêmeos ativar!
Edson e Marconi

música!!

Martha e Haroldo



Tati e Marconi


Fotos: Beatriz e Haroldo

Bárbara enviou as fotos que faltavam:

Rafael e Natália

Márcio

22 Junho 2009


Da série: Marília

Marília, pequenina, conversa com Lília.
-Mari, como é sua escola?
-É assim, tem gentes boas, gentes que batem e gentes que beliscam.

-E vc como é?
-Sou gente que belisca.

19 Junho 2009



Bienal do Livro na Bahia 2009
Praça de Cordel e Poesia

18 Junho 2009

QUILÔMETROS E QUILÔMETROS...

Quando a gente era menino, e viajava numa Veraneio ( um carro muito véio, não é do seu tempo não ) de Juazeiro a Salvador, a gente dividia a estrada DE QUINHENTOS E VINTE E UM KM em quatro partes, a saber:

Juazeiro - Bonfim ( Primeira parte )
Bonfim - Capim Grosso ( Segunda parte )
Capim Grosso - Feira ( Terceira parte )
Feira - Salvador ( Quarta parte )

Desnecessário dizer que ao chegar a Feira de Santana o carro parecia a Caravana Holidei de Bye Bye Brasil...

Era menino chorando, menino cagado, menino mijado, menino enzambuado, minha mãe já tinha arrumado vinte brigas com meu pai, o papel higiênico já tinha acabado, a farofa de galinha dentro da panela de pressão já tinha ido pro espaço, os menores já haviam engasgado com as balas Soft Assassinas, as bolachas de goma, as bananas, os jogos, a animação, tudo esgotado.

E então vinham as inquisições:

_ Meu pai, quanto falta?
_ Meu pai, falta muito?
_ Quantos quilômetros?

_ O que é Quilômetro?

Meu pai tinha uma paciência que extinguiu-se nos pais da atualidade.
Nunca mais eu tive a chance de ver alguém com aquele perfil.

Lembro de uma vez que Ricardo conseguiu, Deus sabe como, um fósforo e sem que ninguém visse acendeu um dos palitos e encostou a chama nos cabelos de meu pai, que num golpe com a mão rapidamente apagou sem sequer virar-se para trás, era ele quem dirigia e o menino estava no bando de trás.

Memoráveis essas fantásticas travessias da BR 324.

Mônica San Galo

10 Junho 2009

Desamparo:

1. parecido com a chuva caindo e
vô Brício dizendo:
"chuva não quebra osso de ninguém" .


2. o pintinho morrendo engasgado
e a gente tentando salvar com óleo de cozinha.

3. eu, bem pequena, faço a oração recém aprendida e
misturo com a letra de uma música, na época,
muito cantada por Roberto Carlos:
"Meu bondoso anjo da guarda que me rege e ilumina
faça de conta que pra você não sou ninguém"

M.


03 Junho 2009


Verões

O rapaz era bonito.
E forte,
e moreno.
Da cor de um marrom
combinando com o verde das folhas.

Iam juntos pra fazenda,
ele caminhando na frente,
valente e viril.
Meio bêbado,
beliscava suas coxas.

Casa de farinha,
curral,
casa do vaqueiro,
cavalos, cana de açúcar,
pele quente, ingá,
cana de açúcar
e o tempo a favor.

No planeta,
um céu bem azul e
seriguelas madurinhas
tiradas do pé.

O mundo girava tonto
e lento,
no ritmo da menina,
muito vento.

Ninguém sabe
onde foi parar o sumo
desses verões.

Martha

02 Junho 2009


Minha lembrança mais remota: eu, muito pequena, e a mãe de um coleguinha na escola contando história. As cadeiras pequeninas, azuis? O pátio grande, vermelho, a mãe do menino contava a história do homem que roubava crianças e as colocava dentro de um saco. Eu nem respirava de fascínio e terror.
Na praia de Ondina, uma mulher me ensinou a mergulhar sem fechar com a mão as narinas. Respirar forte expelindo o ar pelo nariz, expirar, expirar enquanto o rosto rompe a barra da água, e enfim, inspirar de novo.
Em Ubaíra, conheci o Chupa-imbigo, era um velho mau, se pegasse uma criança desprevenida, chupava todo o seu sangue pelo umbigo. Às seis horas da tarde, a Ave Maria soava triste no alto-falante da igreja, e como ouvidos não se fecham com as mãos, éramos obrigados a escutar toda a canção que ecoava na pequenina cidade incrustada no vale.
Para mim, era a hora mais perigosa dele aparecer. No lusco-fusco da Ave Maria, sob a sonoplastia das cigarras. Às vezes eu estava forte, outras vezes, voltava correndo e ofegante para casa de meu avô.

M.

01 Junho 2009















foto: Haroldo Palojr

Em Valença, uma menina desobediente e malvada chamou sua mãe de cavala. Punição: ficar encantada para sempre em forma de coruja e vagar pela cidade cantando: a cavala, a cavala, a cavala ...

Eu tinha fama de malcriada mas nunca chamei minha mãe de cavala. Mas pelo sim, pelo não, quando essa menina coruja passava piando eu tomava banho com a porta aberta.

M.

30 Maio 2009

Oração para aviadores

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, vosso pai,
Santa clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.

Manuel Bandeira

27 Maio 2009


nossos beijos costurados

nossos beijos costurados sobre a camiseta
tão inquietos os beijinhos
que caminham rebeldes pela pele
e se agarram como manchas no pescoço

eu brinco a beça com a sua cabeça
tem piolhos tem caprichos muitos grilos
pelos loiros coloridos
eu colo no seu colo a minha boca
e você se perde

porque agora tem um mar de cheiros
o amargo mar de onde arde o nardo
e desce entre as pernas da menina
com meu ramo mirrado e uma rosa uma rosa
uma rosa sob a minha mira

sei os beijos na palma da mão
e palmas para o movimento gostoso
da palmeira no vento e sua palma
magrinha como o visgo do dendê

os beijos sobre os beijos pela pele
derramam bálsamos a cântaros
e perfumam qual o cedro o seu ciúme
a casa não tem varanda a que se preste
a sacanagem santa desses nossos beijos

que correm cosidos pela camiseta
tão inquietos os beijinhos os beicinhos
passeando rebeldes pela pele
& te adornando no pescoço nas orelhas

Leo Gonçalves

26 Maio 2009














Adenor Gondim


Grande escola particular e católica em Salvador, 26 de maio de 2009. É dia de Maria, a imagem de Nossa Senhora vai para a sala de aula e é recebida com flores e velas. Um menino pergunta:
- Professora, faz o que com essas flores?
O colega responde:
- Joga no mar pra Iemanjá.

25 Maio 2009

Viceversa

tenho medo de te ver
necessidade de te ver
esperança de te ver
pernas bambas de te ver
tenho vontade de te encontrar
preocupação de te encontrar
certeza de te encontrar
pobres dúvidas de te encontrar
tenho urgência de te ouvir
alegria de te ouvir
boa sorte de te ouvir
e temores de te ouvir
ou seja
resumindo
estou fodido
e radiante
talvez mais o primeiro
do que o segundo
e também
viceversa.

Mario Benedetti

(tradução:
Leo Gonçalves)


tengo miedo de verte

necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte
tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte
tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte
o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.

Mario Benedetti

24 Maio 2009

(...) porque sou salva pela metáfora, a única realidade. A ciência não salva, porque insiste em chamar as coisas por seus nomes e quem suporta isto? O amor é a mais fantástica metáfora, a realidade mais incrí­vel. Pedro ama em mim o que serei quando for.

Adélia Prado

Os Componentes da Banda























Minha sala de jantar
tem um espelho
que evito olhar.
Guardo ilusões
para os dias difíceis.

Falam que zeros à esquerda
são sem valor.
Sinta-se um zero e
verás
que todos zeros
são iguais,
sem amor.

Corra da solidão.
Encontre alguém,
depois de encontrar
você.
Abra portas e janelas e
conecte-se com o irreal.
Suba, pule, sonhe,
embarque na imensidão.
Carregue nos ombros
a leveza e a dureza do ser.
Assim estarás,
algum dia,
repleto de paz.

Quando submergir
desse calabouço de fantasmas,
montarei a motocicleta e
sobre duas rodas, voarei como um
albatroz,
que plaina na brisa matutina
e à noite dorme tranqüilo.

Atenderei teu chamado, Maria.
Amarei contigo na areia da praia.
Serei teu Ilê,
o mais belo entre belos.
Sou quem sou mesmo sem saber
quem sou e assim será.

Enxugarei tuas lágrimas,
Maria.

Haroldo Abrantes
Saudação Plataforma.
Poema "Pensa, Whitman", de Nilson Galvão



Visite o blog
Plataforma para a Poesia , você vai gostar.

23 Maio 2009

Salvador: 6 627 pessoas desabrigadas
auxílio moradia: R$ 150,00





Thiago Teixeira

As casas

As casas desta cidade,
suas coroas farpadas,
são cemitérios
de vivas almas penadas.

Escondidas por detrás
destes espinhos,
os seres desta cidade
em túmulos fazem ninhos

Os seus projetos
de cama e mesa propícia
são dirigidos por máquinas
de engrenagem subreptícia.

E, assim, nas rodas,
das rodas gira
quem muito te ama
e te admira.

Ildásio Tavares

15 Maio 2009



Seu corpo celeste
Sobrepõe-se ao meu
Ocultos até de Deus.

Rosa Pena

12 Maio 2009

Retrato Ardente

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugênio de Andrade

10 Maio 2009

Mães

Nem todas as mães
são santas,
nem todas as santas
são mães;
mas, de quedas, prantos
e sóis soluçantes
as colinas de mães sozinhas
fervilham neste instante.
Ó vós, que ainda tendes
dentro da noite o choro fino,
a febre e os miúdos braços
afirmando no escuro
vosso sangue e a aurora
que vos sucederão,
ainda é tempo de agarrar-vos
ao pequeno e vivo troféu
e, contra as raivosas manhãs,
esquentar o leite,
vestir os filhos
e não perder a esperança.

Alberto da Cunha Melo
Em cada casa uma mãe desamparada

Em Paripe, Salvador, entre 40 e 50 casas desmoronaram num período de 24 horas – entre o meio-dia de sexta-feira e a tarde deste sábado, 9. Um quarteirão inteiro está ameaçado de desabar , a Rua de Deus foi a mais atingida.
A irresponsabilidade não é da chuva, e tem nomes.

Domus

Com seus olhos estáticos
na cumeeira a casa olha o homem.
A intervalos
lhe estremecem os ouvidos,
de paredes sensíveis,discernentes:
agora é amor,agora é injúria,
punhos contra a parede,
pânico.

Comove Deus
a casa que o homem faz para morar,
Deus
que também tem os olhos
na cumeeira do mundo.

Pede piedade a casa por seu dono
e suas fantasias de felicidade.
Sofre a que parece impassível.
É viva a casa e fala.

Adélia Prado

03 Maio 2009
















Atila Naddeo

Cigarras

Cigarras são palavras femininas
mas é no abdome do macho
que os timbais implodem.


O canto estridente masculino
convida as fêmeas para a morte.
A lamúria das cigarras
é só dos machos.
Será remorso?

O grito cortante
lamenta as ninfas que descem
e se enfiam, e se escondem e se enterram
para em silêncio sugar
a seiva das raízes.

As cigarras ignoram suas asas
grandes, transparentes e bordadas,
agarram-se aos troncos e galhos
para espalhar em uníssono
seu canto doloroso e amargo.

Ao entardecer,
hora mais triste do dia,
os machos choram
até rebentar minhas costas.

Sob o canto lancinante
das cigarras
eu e as lobas uivamos
dolorosas.

Martha