12 abril, 2009

Da série: Reminiscências

















Martha e Brício
Ubaíra, 1978


Vô Brício era forte, firme, austero. Se fosse um bicho seria um nelore bem bonito.
Foi prefeito mais de uma vez de Ubaíra e era muito respeitado.
Quando chegávamos de Salvador, ele estava esperando no último batente da escada e ali, ao entrarmos em casa, éramos abençoados.
Quando a viagem era de volta, ele ficava nervoso, nos acordava cedíssimo, muito antes da hora. Meu avô considerava ler uma coisa tão importante e dispendiosa, que nos proibia de ler após o almoço para não atrapalhar a digestão.
Havia um quarto onde as frutas de vez aguardavam amadurecimento. Quando era época, no meio da tarde ele pousava sapotis em minhas mãos. Íamos buscar as frutas maduras, ele na frente arrastando os chinelos. Na casa de meu avô tinha muitas gaiolas com passarinhos. No corredor, um cabideiro na parede com seus chapéus.
Meu avô com setenta anos vacinava o gado sozinho no curral. Meu avô sempre estava de calças, e usou paletó durante muitos e muitos anos. Às vezes, na rede, escorregava a calça de seu pijama, e podíamos ver na alvura da sua pele as suas veias azuis.
Após o almoço, ele tirava um cochilo, e nós, as crianças, não podíamos fazer barulho nenhum . Eu ficava deitada lendo escondido fotonovelas. Ou ia pra o quintal de cima. Ver a vida de cima, era demais.
Quando meu avô teve o primeiro avc, só reconheceu Buduga. Lembro dele deitado na cama na casa de tio Sílvio. Depois, recusou a cadeira de rodas e se recuperou muito bem. Passou um tempo lá em casa, quando eu lia (e adorava) o jornal para ele. Passei no vestibular e
ele disse que já esperava, porque eu lia bem.
Quando minha avó morreu, ele ficou muito triste. O quarto deles era lindo, o único da casa que era forrado, tinha sala de visitas com sofás chiques e portarretratos.
Meu avô era rígido com horários, quando estávamos na fazenda e ouvíamos o relógio da igreja, voltávamos pra casa desembestados para estarmos à mesa às 12, em ponto. Arroz, feijão amassado, cortadinho de chuchu, carne passada. No rádio, Caetano e Gil cantando o hino do Senhor do Bonfim. A sala de jantar recendia a manga espada, sempre em grande quantidade numa bandeja. Num canto, o filtro de barro e os copos marcados com esmalte.
Vô Brício, na cabeceira da mesa, é uma presença marcante em minha infância. É uma pessoa muito importante pra mim.

Estou aqui e choro.
Porque é noite
porque estou sozinha
porque sou cigarra e canto seco
porque sou fruto pêco
porque peco
e perco.
Só a réstia daqueles dias bendizendo:
- Bença, vô
e beijávamos nossas almas
- Deus te abençoe.
Esses dias luzindo confiança e frutas.


Martha

5 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

O texto e a poesia. A poesia e o texto. O avô. Recordações. Lindas.

aeronauta disse...

Lindo, lindo, lindo. Essa história é também minha, esse avô é um pouco meu.

Mani disse...

Deus tem espaço reservados aos avós...beijos.

Nilson disse...

É um avô um pouco meu também! Ainda mais que não conheci nenhum avô, só as avós. Texto e poema belos, belíssimos!

líria porto disse...

avô - de todas as pessoas, a que mais amei!! também há no meu blog um poema - "abuelo".
besos

A Chuva de Maria

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Muadiê Maria

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