09 setembro, 2007

Prefácio da Antologia poetas@independentes

Expoemas

















Noite de nimbos: as corujas,
escondidas atrás dos ventos,
espreitam, junto dos rochedos,
os camundongos sonolentos.

e aquela estrela de domingo,
atravessa a noite dormindo:


só o cão escuta as pisadas
subindo os degraus de concreto:
pisadas leves, menos altas

do que as batidas e o furor
de Yacala no computador.

Alberto da Cunha Melo, Yacala


Yacala, personagem de nome quicongolês e símbolo do homem universal, mora numa palafita nordestina entre brinquedos eletrônicos e um computador arfante, sucata de luxo da universidade. Autodidata e matemático experimental, dedica-se a “reciclar os dados do lixo, sobre a lama”, a fim de “traduzir em cifras exatas/a voz do cosmo em voz humana”. A tenacidade de Yacala revela todo o poder virtual da poesia. A poesia que existe na ciência, na fé, nos astros, na natureza, no coração humano, no amor e no calvário. A poesia que não está ainda na literatura, mas que pulsa, em potência, dentro do poeta. A natureza da poesia é, portanto, virtual.


A palavra virtual, segundo Pierre Lévy, vem do latim medieval, virtualis, derivado de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual não se opõe ao real, mas ao atual. Contrariamente ao possível, estático e já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização. O problema da semente, por exemplo, é fazer brotar a árvore. A semente “é” esse problema, mesmo que não seja só isso. Isto significa que ela “conhece” exatamente a forma da árvore que expandirá finalmente sua folhagem acima dela. A partir das coerções que lhe são próprias, deverá inventá-la, co-produzi-la com as circunstâncias que encontrar. Yacala narra a epopéia da irrupção da poesia nas condições mais imprevisíveis. Em Yacala, o livro, a poesia se faz a partir do relato do processo mesmo de criação. É a investigação da potência contida na semente: “gorda de luz, a sua estrela/quase rompeu a fina rede de cognição, onde Yacala/a tinha, entre quatro paredes”.

Nos anos 1970 eram comuns as edições caseiras de poesia no Brasil. Em formato pequeno, com papel barato e folhas mimeografadas e presas em geral por grampos de grampeador escolar, essas edições eram veiculadas diretamente pelos autores em bares, eventos, universidades. Nessas edições, a aparência pouco nobre dos livrinhos e o caráter quase secreto da distribuição procuravam se contrapor diretamente à política de cooptação intelectual e às restrições expressivo-comportamentais determinadas pelo contexto autoritário do país. A poesia, enquanto semente, resistia à onda de imposição do silêncio, e continuava a brotar.

Quase quatro décadas depois, essas edições caseiras parecem ter encontrado um novo e eficiente suporte para sua divulgação: o ciberespaço, através de blogs e grupos que se reúnem para ler, discutir e produzir literatura. Este é o caso do grupo que aqui se apresenta, os Poetas Independentes, criado em março de 2006, cuja página pode ser acessada na Internet através do link: http://br.groups.yahoo.com/groups/poetasindependentes .

Desterritorializando o texto, contrapondo-se às políticas editoriais de mercantilização do livro que continuam deixando à margem os novos e os novíssimos escritores, a Internet abriu essa possibilidade de concessão de um “lugar”, um “sítio”, um “site” – permanente, acessível e democrático – para os “sem-texto publicado”. A poesia, sempre resistente, encontra novamente um caminho para brotar.

A escrita digitalizada, em ambiente de ligação em rede, goza da mesma prerrogativa da fala, isto é, do estatuto do direto, do atual, do simultâneo, simulando assim a natureza presencial da voz. Goza também da prerrogativa do dialogismo, esse caráter reticular da comunicação, que arrasta a escrita num movimento de dissolução dos corpos, propiciando a confluência de espaços diversos num mesmo tempo. A desmaterialização da escrita, ao abolir a duração, abole a distância; convoca espaços até então longínquos, temporalmente distantes, porque a distância entre lugares mede-se sempre pelo tempo do percurso. Daí, talvez, a pluralidade das procedências dos sessenta e dois associados deste grupo, espalhados em vários estados do Brasil – Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Brasília, Tocantins – e até do exterior, Moçambique.

Mas a escrita digitalizada em rede goza também de uma prerrogativa mais contraditória: a de, comportando-se como um arquivo imenso, infinito e perene, aliar-se a uma produção imediata, não-linear e efêmera, contrária à cultura do livro impresso, fundada na noção de propriedade intelectual, autoridade autoral, linearidade narrativa e não-interatividade. A edição digital libera o texto de sua relação com o livro.

O crescimento vertiginoso da Internet e a proliferação dos textos neste suporte levam, inevitavelmente, à pergunta: seria o fim do objeto-livro?; uma idéia aceita por muitos, e transformada, já há algum tempo, em tema das próprias obras literárias, a exemplo do romance Não há nada lá, de Joca Reiners Terron. Em certo momento, ele considera a hipótese de não haver mais tempo ou lugar para livros e “objetos perfeitos” no mundo. “Me pergunte como seria a morte do livro”, comenta. E lança, então, o livro para o alto, como se fosse um pombo, com as páginas se abrindo como asas, e o objeto desaparecendo, “como se nunca tivesse existido”.

Embora não se possa abstrair os textos dos objetos que os comportam, ignorando que os processos sociológicos e históricos de construção do sentido se apóiam nas formas em que são dados a ler, nada impede que a poesia, em seu natural impulso de vir-a-ser em potência possa circular confortavelmente entre os diversos meios disponíveis, e com ganho. Pois a cada mudança de suporte, opera-se uma mudança de uso, de natureza do público e de sua relação com o texto, o que representa novos desafios. Segundo Roger Chartier, o mais provável para as próximas décadas é a coexistência, que não será forçosamente pacífica, entre as duas formas do livro e os três modos de inscrição e de comunicação dos textos: a escrita manuscrita, a publicação impressa, a textualidade eletrônica. “Essa hipótese é certamente mais sensata do que as lamentações sobre a irremediável perda da cultura escrita ou os entusiasmos sem prudência que anunciavam a entrada imediata de uma nova era da comunicação”.

O grupo Poetas Independentes, que nasceu e se desenvolve em meio digital, mas que debuta, com esta antologia, também no universo da cultura impressa, é um exemplo vivo e atuante das possibilidades de confronto da poesia com ambientes cognitivos distintos e diferentes formas de leitura das mesmas obras. Quinze poetas participam desta primeira antologia: Bruno Candéas, Carlos Maia, Clóvis Campelo, Conceição Pazzola, Demóstenes Félix, Gerlane N. de Melo, José Calvino, Líris Letieres, Martha Galrão, Sílvia Câmara, Teresa Oliveira, Verônica Aroucha, Vilma Abubua, a maioria poetas iniciantes; além das participações especiais de Alberto da Cunha Melo, que comparece inclusive com um poema inédito: “Cancioneiro para o terceiro mundo”, e de Luiz Guimarães, compositor de frevo reconhecido, músico e poeta revelado dentro do grupo. A capa foi elaborada por Cláudia Cordeiro, editora dos sites Plataforma para a Poesia e Trilhas Literárias.

"Expoemas”: que não se entenda, neste título resgatado a uma obra de Augusto de Campos, a idéia de esgotamento ou superação da poesia. Na falta do hífen, a intenção da palavra é oposta: são poemas que se expõem, ora pela fugacidade do meio digital, ora pela perenidade do meio impresso, cumprindo a missão de Yacala: transformar a potência da poesia virtual, real em si mesma ainda quando inexpressa ou impublicada, na atualidade plena da palavra. Digital e fugaz, ou impressa e perene, não ignoramos os sons de seus passos que, em essência, nos procuram: “pisadas leves, menos altas/do que as batidas e o furor/de Yacala no computador”.


Ermelinda Maria Araújo Ferreira
Recife, 5 de agosto de 2007.


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http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br

8 comentários:

Kátia Borges disse...

Vai ter lançamento aqui em Salvador, Martha? Quando será? Como podemos adquirir um exemplar? Tem tudo isso no texto? É que, não sei vc, mas quando leio um texto longo na tela do computador, não consigo reter as informações. Quando termino, dá um branco... Bjs

Kimangola disse...

Admiro o que escreves,andei já por inúmeras tuas palavras, do prazer tirado, vénia executada,agradeço.

Ofereço assim palavras,também

aperto em coração…
http://kimdamagna.blogspot.com/2007/09/aperto-em-corao.html

Moacy Cirne disse...

Pelo prefácio, deve ser uma antologia muito boa. Fiquei curioso.E as palavras nordestinas - reportando-me ao seu comentário no Balaio - realmente são porretas. Um beijo.

andre, um jerico disse...

Antologias e antologias...
vejo tantas,
não as entendo.
Leio poucas
somente as loucas
as feitas de louça
as que cabem em bolsas
mas não se encaixam
nas palavras falsas

André, um Jerico
www.ideiadejerico.com

PS: quer fz o favor de me ler... faço greve viu?

Raiça Bomfim disse...

Faço minhas as interrogações de Kátia!!! Eu quero o impresso!!! Eu quero!! hihi
E o Yacala me deixou curiosíssima...

Meu e-mail é rai_bomfim@yahoo.com.br

E na verdade, nêga, você até já deve me ter em sua lista. De tempos em tempos, recebo uns e-mail seus (enviados para um conjunto de pessoas) com textos bem interessantes ou indicações maravilhosas- como a do pintor realista israelense (? ou será palestino? E que o oriente médio não ouça...).

Nos falamos por e-mail então.

Grande abraço.

Bela disse...

Rá! Eu que sou metida pra chuchu fui lá no grupo dos PI e me inscrevi pra receber os emails de vcs...tô perdida nos assuntos! hahahahahahaha
E tem grupo de email com indicações de coisas lindas?
Tb queroooo!
bela.caleidoscopica@gmail.com
beijos beijos
Bela, a pidona

Abrantes disse...

Parabéns poeta do brinco de pérola

Vieira Calado disse...

Trata-se dum belo poema.
O poeta não engana.
É mesmo poeta!
Um abraço "transcontinental"

A Chuva de Maria

A Chuva de Maria

Muadiê Maria

Muadiê Maria