17 setembro, 2007

Ex-voto

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro de minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
"você é muito sensível, por isso tem falta de ar".
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem força para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria junto mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,

não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.

Adélia Prado

8 comentários:

FINA FLOR disse...

Que lindo esse poema da Adélia, querida, não conhecia.

Espero que o meu Deus me queira sempre escrevendo, rs*

beijos e boa semana

MM.

Diz disse...

Tb não conhecia, gostei mto- eu não conheço mto poesia, sou ignoranteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
bjs Laura

Verônica Aroucha disse...

Martha querida, que bela escolha!!
Os Deuses que nos curam são assim:
do inferno para o céu, em segundos...Ás vezes, ainda enxugando a saúde com a palma das mãos.
Abraço imenso.
Verônica

Sílvia Câmara disse...

Você sabe que em se tratando de Adélia, eu sou suspeita pra opinar, né???
Adoro-a.
um beijo

RAINHA MAB disse...

Ô, Martinha, tem sido difícil, filha.. E quem disse que viver é fácil? Se eu soubesse disso nem aqui teria vindo.

Beijo.

Nanda disse...

Nossa, que lindo! Conhecia não!
Li sem saber que era dela, mas já sabendo. Esse jeito Adélia...

Mani disse...

Ah, Martha, faz assim, não, me parte a alma em pedaços...Eu lia e lembrava da Fal. Vou mandar esse poema pra ela, beijos...

MARIAESCREVINHADORA disse...

Marthinha,

Cada dia mais lindo o seu blog me encanta por demais.
Embora ainda com a vista opaca, não posso deixar de lhe dizer Parabéns!
Adélia Prado é o que há.
Beijo,

Conceição.

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