Fim de tarde
Sorvete na Cubana final de tarde. Você me conta, com riqueza de detalhes, sobre o amigo que se jogou do Elevador semana passada. Me debruço na balaustrada e olho a altura do precipício. A falésia dos suicidas. Sinto uma vertigem alucinante: medo ou gozo? Viro as costas para a baía e me distraio olhando os pombos. Estamos sós na praça; sem transeuntes, sem turistas ou vendedores de fitinhas do Bonfim. Estamos sós naquele cenário nostálgico e um silêncio dourado nos protege. Tiramos um selfie nos beijando na boca enquanto a noite cai misteriosa sobre a velha Casa da Cadeia. Ouço barulho de correntes e cadeados; os sinos dobram carpindo uma dor atávica sobre a nossa cristandade, enquanto batemos em retirada. Recito um longo poema de Gregório já galgando a Rua Chile deserta e povoada de fantasmas da belle époque. Um dia, num hotel desta rua, Ruth Landes fora confundida com uma prostituta. Hoje o deserto assalta o passado. Aos pés do poeta somos vencidos por uma aflição inexplicável e tomamos um táxi, com Caetano cantando Lua de São Jorge. No Dique uma baianidade funda e dolorosa olha o espetáculo das luzes refletidas no espelho d’água. O pânico das alturas me vem em imagens ciclotímicas. Balanço a cabeça espantando o medo paralisante que me congela por dentro. Sou econômico ante a cordialidade logorreica do motorista que me deixou fumar no automóvel. Um ebó enorme e colorido enfeita o pé da ladeira dos Galés. Levanto as mãos em reverência. Meto as chaves na porta da redoma, pensando num poema de Martha Galrão: "Todas as noites\ teus barcos partem para o mar\ A ondulação do teu corpo\ Sustenta a alma marinha".
Alberto Heráclito Ferreira
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