23 outubro, 2006

Registros da viagem



Quem morreu foi a irmã de Ivone.

Homem quando fica zangado cospe marimbondo.

Tem quem desconfie que a mulher de 78 anos, casada desde os vinte, é virgem.

Já viu orelha passar cabeça? Perguntou a tia-avó.
Já, de jegue. Respondeu a sobrinha-neta.

O facão de Vardo é implacável contra as graxas e espirradeiras. Quase não sobrou flor sobre flor na sua poda traiçoeira.
A mulher de Vardo é bonitona. Quando chegaram os homens pra trabalhar na maricultura, ela se enrabichou logo por um, e foi morar com ele.
Depois que o trabalho acabou, o tal homem foi embora, e Vardo aceitou ela de volta.
Mas bem que ele e a cozinheira ficaram só sorrisos ao lado da futura fogueira. E ele até lhe deu flores da espirradeira.

No almoço, beijupirá - o rei do mar - frito no dendê.

Toda hora alguma coisa some, só pode ser coisa de erê. Some chave, papel do presente, lanterna. O dono da casa fica doido, vasculha tudo até achar. O jeito é ajudar na procura pra não endoidecer de vez.

A moça que eu conheci ainda criança está grávida pela segunda vez. Ela vai mentir, dizer que já tem três pra poder ligar. O marido, desempregado; e o barraco é assentado na invasão. O prefeito já garantiu a escritura. De lá ninguém sai.

Anos atrás a mulher reclamou com o homem: Pra que plantar esses coqueiros se não vai dar tempo da gente colher?
Hoje, o velho vem com o facão e corta o coco. A velha vem com a jarra e apara a água docinha docinha. Melhor coco não há.

Muito passarinho que existia lá não tem mais.
Papai dizia: Se pegar fêmea, solta!

Solta!

Martha


Fotos: Haroldo

3 comentários:

conceicao pazzola disse...

Ficou espetacular, Martha!
ADOREI, viu?
Que marzão convidativo, meus deuses, dá vontade de sair correndo e mergulhar de cabeça.
Lindo demais!
Grande abraço,

Conceicao.

Clóvis Campêlo disse...

Quase me fez esquercer a praia do Pina com a Pedra Castelo, o Trapiá, a Iuiá, as mariquitas, os baiacús, as moréias e as morenas.
Clóvis Campêlo

Raiça Bomfim disse...

Eu li esse texto ontem e achei ótimo. Aí hoje escrevi um textinho enquanto olhava a chuva, e depois, ao reler, percebi que o estilo em que eu o escrevi tinha sido inspirado nesse seu.
Sempre bom aprender com a poesia do outro (apesar de eu ainda estar na fase bem aprendiz iniciante... Ou talvez por isso mesmo o prazer seja ainda maior)
Beijo grande.

A Chuva de Maria

A Chuva de Maria

Muadiê Maria

Muadiê Maria